No final dos anos 90 apareceu um híbrido intrigante entre uma boneca e um jogo: o Tamagotchi. A japonesa Bandai criou um dependente eletrônico e ofereceu às crianças uma promessa simples, porém convincente: um bichinho pixelado que precisava de cuidado o tempo todo. Conforme a tecnologia evolui, vamos cuidando de outro dependente eletrônico: o smartphone, o nosso Tamagotchi moderno.

Atenção: de jogo a moeda corrente

O nome mistura “tamago”, ovo em japonês, com o “watch” do inglês. Era um chaveiro em formato de ovo, com uma telinha de LCD, e dentro dela morava uma criatura digital minúscula. Esse bichinho digital portátil fazia o dono girar em torno dele: acordava ele no meio da noite pedindo comida, exigia limpeza e atenção pra crescer saudável, e ainda podia “morrer” se fosse negligenciado.

Algumas décadas depois, trocamos essas criaturas digitais por outra – bem mais sofisticada. E o smartphone é muito mais do que apenas um objeto: assim como o Tamagotchi, ele exige atenção constante, vive implorando por uma carga de bateria e tem uma lista enorme de “necessidades”, de atualizações e notificações a aplicativos que exigem interação do usuário.

Nas mãos de milhões de pessoas, esses aparelhos onipresentes exigem uma fatia enorme da nossa atenção diária. Eles nos mantêm entretidos, conectados e atualizados, e às vezes oferecem até consolo. São uma companhia constante – uma fonte de engajamento que nunca acaba, assim como eram os Tamagotchis de antigamente.

Trocando os papéis

Estamos cada vez mais grudados no celular, e eu fico pensando no que essa dependência faz com a gente, no quanto a tecnologia já entrou na nossa vida, e nos perigos menos visíveis da inteligência artificial (IA) na tecnologia pessoal.

O perigo que eu vejo na IA está menos em ela virar uma força dominante e diretora, e mais em ela ficar profundamente carente e emocionalmente manipuladora. Conforme a IA se torna mais avançada, os algoritmos que governam nossos aparelhos são projetados para deixá-los mais pessoais e mais atraentes para nós. Eles insistem. Imploram por mais um pouco da nossa atenção, e querem que a gente continue alimentando e nutrindo e brincando com eles.

O que acontece quando a interação digital constante começa a substituir a interação humana? Fico pensando se vamos acabar alucinando presença social, criando laços emocionais com nossos “bichinhos” de IA e recorrendo à tecnologia em vez de outras pessoas quando quisermos companhia.

Mantenha o controle e mantenha sua humanidade

Nossos gadgets são Tamagotchis de adulto, sempre pedindo atenção, e despejamos afeto neles, às vezes à custa das conexões da vida real. Os trade-offs que a gente aceita no caminho são quase todos invisíveis, e é justamente por isso que vale olhar pra eles. Eu queria que meu celular continuasse sendo uma ferramenta, e não um bichinho digital carente, e pra isso sou eu que preciso decidir quanta atenção ele recebe.

Seria um paradoxo enorme se as próprias ferramentas projetadas para melhorar a conexão acabassem criando mais desconexão. Não acho que isso esteja resolvido, nem pra um lado nem pro outro.

10 dicas para se manter humano

  1. Crie períodos de detox digital. Reserve horários específicos do dia ou da semana pra ficar longe do celular. As refeições, a primeira hora depois de acordar e o período antes de dormir podem ser períodos sem telefone, e ajudam você a se desconectar e interagir mais com o mundo real.
  2. Cuide das notificações. Personalize os alertas pra minimizar distrações, e desligue os não essenciais, pra ser avisado só do que realmente precisa da sua atenção.
  3. Priorize as interações face a face. Faça um esforço consciente pra ter mais conversas pessoais. Marque encontros regulares com amigos e família, e prefira a interação direta à comunicação digital.
  4. Antes de pegar o celular, pergunte por quê. É por hábito, tédio ou necessidade genuína? Essa pergunta pode reduzir o tempo de tela desnecessário.
  5. Estabeleça zonas livres de tecnologia. Crie áreas em casa onde o celular não entra, como o quarto ou a mesa de jantar. Isso pode incentivar interações mais significativas e uma melhor higiene do sono.
  6. Faça uma coisa de cada vez. Foque em uma tarefa só, sem a distração do celular por perto. Além de melhorar a produtividade, isso reduz aquela vontade constante de conferir o celular.
  7. Limite o uso de redes sociais. Defina um limite diário. Aplicativos que rastreiam o tempo de tela podem ajudar você a respeitar esse limite, e podem avisar quando é hora de se desconectar. Atualização 2023: atualizações recentes dos sistemas operacionais iOS e Android introduziram configurações de bem-estar nativas que podem servir como um mecanismo para devolver o seu tempo.
  8. Tenha hobbies que não envolvam telas. Redescubra os antigos ou comece novos: ler, pintar, cozinhar, cuidar do jardim. Isso diversifica suas atividades e reduz o tempo de tela. Que tal adotar um animal de estimação de verdade e aprender a treiná-lo? ;)
  9. Use alternativas analógicas. Onde der, prefira versões não digitais de dispositivos e ferramentas: livro de papel em vez de e-book, diário em vez de aplicativo de notas, despertador tradicional em vez do alarme do celular.
  10. Invista em alfabetização digital. Eduque-se e eduque os outros sobre os impactos da tecnologia na saúde mental e nos relacionamentos. Entender esses efeitos pode motivar um uso mais consciente.

Referências