Há uns dois anos, uma amiga minha (vou chamá-la de Ana) trabalhava no back-office de um banco de porte médio. A mesa dela vivia cheia de formulários de onboarding, digitalizações de documentos e a chatice diária de copiar números para planilhas. Aí a gerente dela implantou uma ferramenta de IA capaz de ler os documentos, preencher as células certas e conferir as assinaturas em segundos. Seis meses depois metade da equipe já tinha saído sem alarde – e as cadeiras continuaram vazias. “Ninguém foi demitido”, ela me disse. “Eles só… pararam de repor as pessoas.”

Desde que o ChatGPT apareceu no fim de 2022, chefes do mundo inteiro vêm repetindo a mesma pergunta: dá pra produzir mais com menos gente se a gente acoplar IA ao dia a dia? Os dados dizem que sim, até certo ponto, com algumas nuances e uns fiascos pelo caminho.

O congelamento silencioso das contratações

Uma manchete sobre milhares de demissões chama atenção, mas o que quase ninguém comenta são os congelamentos de contratação. O CEO da IBM pausou 7.800 posições de back-office apostando que a rotatividade somada à IA daria conta do recado, e a CrowdStrike, de cibersegurança, cortou 5% da sua equipe pelo mesmo motivo. Até as empresas que continuam crescendo andam cochichando que a próxima turma de analistas júnior ou de coordenadores de RH talvez seja a última turma grande.

Por que tanta cautela? Porque a IA é boa justamente na parte chata: entrada de dados, agendamento, relatório básico. Eram essas tarefas que justificavam uma vaga de nível inicial, e hoje um chatbot ou um modelo que lê documentos resolve tudo antes do seu café esfriar. As empresas não precisam demitir exércitos de assistentes. Basta não contratar os novos.

A pesquisa Future of Jobs 2023, do Fórum Econômico Mundial, constatou que 40% dos empregadores planejam enxugar equipes onde a IA consegue automatizar tarefas. Eu trato esse número como ilustração, e não como previsão. Não é o mercado inteiro, mas é um pedaço grande do trabalho de escritório.

E a qualidade?

Fazer mais rápido não adianta nada se o que sai é ruim, e já teve alguns fracassos bem documentados nessa história.

A CNET publicou, sem alarde, dezenas de guias de finanças escritos por IA, e mais da metade tinha erros factuais. Os leitores não gostaram nada. Dois advogados de Nova York foram multados depois que o ChatGPT inventou citações de casos em uma petição, o que virou uma lição bem cara sobre confiar de olhos fechados.

O atendimento ao cliente tem as próprias histórias de horror. A Klarna trocou 700 agentes de suporte por um bot de IA em 2023 e, no começo de 2025, o próprio CEO admitiu que o bot tinha deixado os clientes furiosos, e a empresa saiu correndo pra recontratar gente. Quando tem reembolso em jogo, velocidade não resolve. (Nesses casos eu nunca sei se o problema é o bot ou a pressa de quem decidiu fazer a troca, mas enfim.)

Só que o pêndulo vai pros dois lados. Pesquisadores do MIT deram o ChatGPT para um grupo de voluntários de trabalho de escritório e viram as tarefas terminarem 40% mais rápido, com nota de qualidade 18% maior. Num call center de uma Fortune 500, as sugestões de IA aumentaram em 35% a produtividade dos agentes novatos, e a satisfação dos clientes subiu junto. Nos dois estudos sempre teve gente no meio do processo: a IA rascunhava, alguém conferia, e só então aquilo chegava ao cliente final.

Requalificação não resolve tudo

Sangeet Paul Choudary, que estuda economia de plataformas, escreveu faz pouco tempo que aquele slogan simpático, “a IA não vai tirar seu emprego, mas alguém usando IA vai”, esconde mudanças de poder bem menos simpáticas. Ele tem razão, e dá pra ver isso nos casos acima.

Algumas tarefas mudam de mão e outras simplesmente somem. O congelamento da IBM mostra como áreas inteiras de back-office podem sair do organograma quando a IA assume os formulários e as aprovações. É a primeira falácia que Choudary aponta: automação e ampliação do trabalho humano não são um “ou isso, ou aquilo” limpinho, e a tarefa em si pode perder valor da noite pro dia.

Os estudos do MIT e da NBER mostram que a IA pode deixar a pessoa mais rápida e às vezes até melhorar a qualidade, mas Choudary lembra que esse ganho não cai automaticamente no bolso de quem trabalha. Se todo analista passa a entregar dez apresentações antes do almoço, o preço da apresentação despenca, e o valor se concentra em quem é dono do fluxo de trabalho, que geralmente é a plataforma ou a empresa que tem os dados.

Reescrever um fluxo de trabalho abre rachaduras que ninguém vê na hora. O fiasco da Klarna e os textos furados da CNET são o que acontece quando a empresa arranca o checkpoint humano sem redesenhar de quem é a responsabilidade. Choudary chama isso de falácia do “o fluxo de trabalho não é sagrado”: a IA pula uma etapa ou empurra a etapa pra outro canto, e às vezes despeja a responsabilidade toda no último humano da fila.

Quem faz escrituração, os advogados juniores e até os designers gráficos podem seguir com o mesmo título, mas conforme a IA vai pegando o trabalho pesado, o diferencial de salário vai encolhendo. Os números de rotatividade do Fórum Econômico Mundial dão a entender essa diluição: os papéis continuam existindo, mas uma parte maior do valor vai parar mais acima, nos polos onde a IA está concentrada.

Aprender a usar IA é necessário, sim, mas é um colete salva-vidas, não um jeito de sair da água. O mais difícil é enxergar como a sua empresa está redesenhando os fluxos de trabalho e os lugares onde o valor se acumula, pra você conseguir se posicionar onde o valor novo vai parar.

Quem sente o aperto primeiro?

Começa pelo administrativo e pelo trabalho de escritório mais braçal. Se o seu trabalho é mover informação de uma caixinha pra outra, a IA já está de olho na sua cadeira: quem digita dados, quem roda a folha de pagamento e quem audita as despesas de viagem aparecem no topo de qualquer lista de cargos mais automatizáveis. No atendimento ao cliente é parecido. Um chatbot responde às perguntas frequentes 24 horas por dia por centavos e resolve sozinho um reembolso simples, mas um acionamento de garantia com cinco etapas ainda precisa de gente, pelo menos por enquanto, então o que sobra são menos agentes de nível 1 e mais especialistas cuidando das exceções.

Em finanças e contabilidade, entre a concessão de crédito automatizada e a reconciliação feita por IA, o lado numérico está se transformando: quem faz escrituração corre o maior risco, e os contadores forenses, que sabem interpretar os alertas apontados pela IA, continuam bem. Na pesquisa jurídica a divisão é parecida. Um modelo de linguagem que engoliu um oceano de jurisprudência cospe uma minuta de contrato em minutos, e o advogado júnior que passava a madrugada revisando cláusulas hoje supervisiona um algoritmo. Tem que conferir tudo, porque o modelo pode alucinar, mas o volume de trabalho que sai é enorme.

Na criação e no design, a arte generativa sacudiu os ilustradores em 2023, quando “The Dog & The Boy”, da Netflix Japão, usou planos de fundo gerados por IA. Hoje as agências produzem trinta mock-ups de anúncio no Midjourney antes de um diretor de arte escolher um, o mercado de arte mediana está desabando e a procura por boas narrativas e por voz de marca está subindo. No desenvolvimento de software o GitHub Copilot escreve boilerplate em segundos, os engenheiros seniores adoram e os juniores se preocupam, e os melhores devs hoje arquitetam sistemas e revisam a saída da IA atrás de bugs em casos extremos em vez de digitar cada for-loop na mão.

Funções que não existiam

Repare que em todos esses casos a rotina escorrega pra máquina, e o que continua rendendo dinheiro é o trabalho que exige critério e criatividade. Só que toda onda de automação também cria cargos que ninguém imaginava dez anos antes, e com a IA não é diferente. Alguns que praticamente não existiam antes de 2021:

  • Engenheiro de prompt, que é meio poeta e meio programador, e arranca respostas (ou imagens) melhores dos modelos.
  • Especialista em ética de IA, a consciência do algoritmo, que acha o viés antes de a coisa ir pra produção.
  • Gerente de risco de modelo, porque uma hora o regulador vai perguntar por que a sua IA negou aquele empréstimo.
  • Supervisor human-in-the-loop, pra tomar conta dos fluxos híbridos em que as pessoas resolvem as exceções que a IA não resolve.

O Fórum Econômico Mundial projeta um salto de 30% a 40% na demanda por especialistas em IA e dados até 2027. Alguém tem que construir, ajustar e vigiar esses sistemas.

Como continuar (felizmente) insubstituível

  1. Abrace a parte bagunçada. Diplomacia com um cliente irritado, brainstorms de estratégia, mentoria de um júnior perdido: é tudo subjetivo e cheio de zonas cinzentas, e é justamente aí que a IA tropeça.
  2. Melhore sua fluência em IA. Você não precisa programar um transformer, mas precisa saber dirigir um, porque quem sabe dirigir a ferramenta tende a continuar com a cadeira.
  3. Cultive o bom gosto. Escolher o melhor prompt de design, perceber uma citação jurídica falsa: eu diria que critério é a habilidade que mais importa hoje. E a decisão de quando não usar IA também tem que continuar com as pessoas.
  4. Aposte em conhecimento cruzado. Alguém de finanças que entende de UX, ou um profissional de marketing que escreve um script básico em Python, se destaca em qualquer congelamento de contratação.

Não vai ser indolor, e eu não vou fingir que vai. Períodos de transição raramente são. Mas, olhando pra trás, quem fez parceria com a máquina costuma sair melhor do que quem brigou com ela.


Então: os robôs vão tomar todos os nossos empregos? Improvável. O mais provável é que eles reorganizem o escritório. Os cubículos cinzentos e repetitivos vão pra um lado, e os humanos ficam com as salas mais iluminadas, onde cabem criatividade, empatia e pensamento de longo prazo.

Se a gente acertar o equilíbrio, talvez o próximo colega da Ana seja um ajudante de IA incansável, que cuida do trabalho braçal enquanto ela pega os projetos que realmente a deixam orgulhosa, em vez de mais um estagiário sobrecarregado. Esse “se” aí é grande, e eu não tenho garantia nenhuma de que a gente vai acertar.

P.S.: sim, usei IA pra me ajudar a estruturar esse texto.